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18 DE JUNE DE 2026
Integralização de imóvel ao capital social dispensa escritura pública: novo reforço da jurisprudência paulista
A integralização de bens imóveis ao capital social das empresas constitui prática amplamente utilizada no ambiente empresarial brasileiro, especialmente em estruturas patrimoniais, holdings familiares, reorganizações societárias e planejamentos sucessórios.
A dispensa de escritura pública não decorre de mera simplificação administrativa, mas do reconhecimento legal de que o ato societário regularmente arquivado na Junta Comercial constitui título formal apto ao ingresso registral, produzindo efeitos equivalentes aos instrumentos tradicionalmente utilizados para a transmissão imobiliária.
Apesar da relativa simplicidade jurídica do instituto, ainda são frequentes as exigências formuladas por Cartórios de Registro de Imóveis no sentido de exigir escritura pública para a transferência do imóvel do sócio para a sociedade, mesmo quando a operação já se encontra regularmente formalizada perante a Junta Comercial.
Recentemente, a 1ª Vara de Registros Públicos da Capital de São Paulo voltou a enfrentar essa questão e reafirmou entendimento de grande relevância para o ambiente empresarial: a certidão da Junta Comercial constitui título hábil para ingresso no Registro de Imóveis, possibilitando a transferência da propriedade mediante o respectivo registro imobiliário, sendo dispensável a lavratura de escritura pública.
A decisão reafirma orientação que decorre diretamente do artigo 64 da Lei nº 8.934/1994, segundo o qual os atos societários regularmente arquivados nas Juntas Comerciais produzem efeitos perante terceiros e podem servir como instrumento apto à transferência da propriedade imobiliária quando houver integralização de capital mediante bens imóveis.
O caso analisado envolvia alteração contratual por meio da qual determinado sócio integralizou imóveis ao capital social da empresa. O instrumento societário previa prazo de dezoito meses para conclusão da transferência patrimonial. Embora o ato tivesse sido regularmente arquivado na Junta Comercial, o Registro de Imóveis recusou o ingresso do título sob o argumento de que a previsão contratual configuraria condição suspensiva, exigindo instrumento autônomo para a efetivação da transferência.
A tese foi rejeitada pelo Poder Judiciário.
Segundo a decisão, a previsão de prazo para cumprimento da obrigação não caracteriza condição suspensiva. Trata-se apenas de termo contratual destinado a disciplinar a execução do negócio jurídico, sem afetar a aquisição do direito já constituído pelas partes.
A distinção é relevante.
Nos termos dos artigos 121 e 131 do Código Civil, a condição suspensiva impede a produção dos efeitos do negócio até a ocorrência de evento futuro e incerto. Já o termo refere-se a acontecimento futuro e certo, que apenas influencia o momento de exigibilidade ou de execução da obrigação.
Assim, uma vez formalizada a integralização no contrato social e arquivado o ato perante a Junta Comercial, o direito à transferência patrimonial já se encontra constituído, inexistindo fundamento para exigir nova formalização por escritura pública.
Outro aspecto relevante enfrentado pela decisão refere-se à anuência conjugal.
No caso concreto, o Poder Judiciário reconheceu que a manifestação expressa do cônjuge no próprio instrumento societário atendia à finalidade de proteção patrimonial prevista na legislação civil, tornando desnecessária a apresentação de instrumento autônomo de consentimento.
A conclusão prestigia os princípios da instrumentalidade, da segurança jurídica e da desburocratização dos atos societários, evitando formalidades excessivas que não agregam qualquer proteção adicional ao negócio jurídico.
A decisão também enfrentou questão frequentemente debatida pelos Registradores: o recolhimento do ITBI.
Nos últimos anos tornou-se comum a tentativa de alguns cartórios de exercer verdadeiro controle sobre os valores utilizados pelos contribuintes para fins de tributação municipal.
Entretanto, em consonância com o entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema Repetitivo nº 1.113, foi reafirmado que eventual discussão acerca da base de cálculo ou do valor recolhido do ITBI pertence exclusivamente à esfera fiscal.
O Registrador pode verificar a existência da comprovação do recolhimento ou da imunidade tributária declarada pelo contribuinte, mas não lhe compete revisar a base de cálculo adotada, arbitrar valor venal ou substituir a atividade fiscalizatória da Administração Tributária.
Basta que o Município tenha sido cientificado da operação e que o contribuinte tenha observado os procedimentos tributários legalmente exigidos.
A relevância prática desse entendimento é significativa.
A dispensa da escritura pública reduz custos operacionais, elimina etapas burocráticas e confere maior eficiência às operações de reorganização patrimonial e societária.
Embora o artigo 108 do Código Civil estabeleça a escritura pública como regra para negócios jurídicos envolvendo imóveis de valor superior a trinta salários mínimos, a legislação empresarial e registral admite exceção quando a transmissão decorre de integralização de capital social formalizada por ato societário regularmente arquivado perante a Junta Comercial.
Em muitos casos, especialmente em holdings familiares, grupos empresariais e sociedades de investimento imobiliário, a exigência de escritura pública representa custo elevado e desnecessário, incompatível com a própria sistemática criada pela Lei de Registros Empresariais.
A orientação agora reafirmada pelo Judiciário paulista fortalece, assim, a segurança jurídica das operações de integralização de capital e prestigia a função econômica dos atos societários regularmente arquivados perante a Junta Comercial.
A decisão não representa posicionamento isolado, mas reafirma orientação que há anos vem sendo adotada pelo Conselho Superior da Magistratura do Estado de São Paulo em inúmeros julgamentos envolvendo integralização de bens imóveis ao capital social.
Trata-se de decisão que reforça importante diretriz: quando a lei reconhece determinado título como apto à transferência patrimonial, não cabe à atividade registral criar formalidades adicionais não previstas pelo ordenamento jurídico.
A segurança jurídica exige observância da lei, e não a criação de obstáculos burocráticos à atividade empresarial.
Processo 1008869-18.2026.8.26.0100
Fonte: Conjur
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